
A Argentina enfrenta uma grave crise de saúde pública. O número de mortes por suicídio atingiu um recorde em 2025, com 5.209 casos registrados, segundo dados oficiais citados em reportagem publicada pelo UOL nesta quarta-feira (28).
De acordo com o levantamento, a taxa chegou a 11,8 mortes por 100 mil habitantes, colocando o suicídio como a principal causa de morte entre argentinos de 15 a 34 anos, superando os acidentes de trânsito nessa faixa etária.
Os números revelam a dimensão de um problema que vem se agravando no país e acendem um alerta sobre as condições de saúde mental, especialmente entre os mais jovens.
Em 2015, a Argentina registrou 3.304 mortes por suicídio. Dez anos depois, o total chegou a 5.209, representando um crescimento de aproximadamente 57,7%.
A taxa passou de 8,2 para 11,8 mortes por 100 mil habitantes no período analisado.
O cenário também chama a atenção quando comparado a outras causas de morte. Em 2025, a taxa de suicídios foi quase três vezes superior à de homicídios, que ficou em 3,6 por 100 mil habitantes. Também superou a taxa de mortes no trânsito, de 8,8 por 100 mil habitantes.
Os dados reforçam a necessidade de ampliar o debate sobre prevenção, acolhimento psicológico e políticas públicas voltadas à saúde mental.
Especialistas ouvidos pela reportagem apontam que o aumento dos casos não pode ser explicado por um único fator.
Entre os elementos associados ao agravamento do problema estão depressão, ansiedade, isolamento social, dificuldades financeiras, desemprego, consumo de drogas e apostas on-line.
A combinação dessas condições pode intensificar o sofrimento emocional e a sensação de falta de perspectivas, sobretudo entre pessoas que enfrentam dificuldades para encontrar oportunidades de trabalho e garantir a própria subsistência.
O psiquiatra Alberto Álvarez, ligado à Associação de Psiquiatria da Argentina, destacou que o crescimento dos casos começou a chamar a atenção durante a pandemia de Covid-19 e apresentou uma aceleração em 2023.
Segundo os especialistas, os efeitos do isolamento e as dificuldades econômicas podem contribuir para o agravamento do sofrimento psicológico.
O crescimento das mortes também aumentou a pressão por respostas do poder público.
Segundo a reportagem do UOL, o orçamento estatal argentino destinado à saúde mental sofreu uma redução de 42% entre 2023 e 2025, período que coincide com o governo do presidente Javier Milei e sua política de ajuste fiscal.
O governo argentino não havia se pronunciado sobre o tema até a publicação da reportagem, e a Secretaria de Saúde não respondeu aos pedidos de entrevista encaminhados pelo veículo.
Especialistas e representantes de organizações sociais defendem medidas de prevenção, ampliação do atendimento psicológico e psiquiátrico e ações para identificar pessoas em situação de vulnerabilidade.
A discussão também chegou ao Congresso Nacional, onde parlamentares avaliam iniciativas diante da gravidade dos números.
O impacto sobre a população jovem é uma das questões mais preocupantes.
Além das dificuldades econômicas e da falta de perspectivas, especialistas destacam a importância de observar fatores como isolamento, sofrimento emocional, dependência de apostas virtuais e dificuldades nas relações familiares e sociais.
A reportagem também apresenta relatos de familiares que perderam filhos para o suicídio e que passaram a atuar no acolhimento de pessoas em crise.
Essas experiências evidenciam a importância de reconhecer os sinais de sofrimento, oferecer apoio sem julgamentos e facilitar o acesso aos serviços de saúde mental.
O suicídio é um fenômeno complexo, associado a diferentes fatores individuais, familiares e sociais. Por isso, especialistas alertam que o problema não deve ser tratado de maneira simplista nem atribuído exclusivamente a uma condição econômica, política ou psicológica.
O recorde registrado na Argentina mostra que a prevenção do suicídio precisa ser tratada como prioridade de saúde pública.
Mais do que divulgar estatísticas, o desafio é garantir que pessoas em sofrimento encontrem atendimento adequado, apoio familiar e social e condições para buscar ajuda antes que a situação se agrave.
A discussão também serve de alerta para outros países: investir em saúde mental, combater o estigma e ampliar as redes de acolhimento são medidas fundamentais para enfrentar um problema que atinge famílias de diferentes classes sociais.
Onde buscar ajuda no Brasil
Pessoas que estejam passando por sofrimento emocional intenso ou pensando em suicídio podem procurar apoio gratuito no Centro de Valorização da Vida (CVV), pelo telefone 188, disponível 24 horas por dia. Também é possível buscar atendimento em uma Unidade Básica de Saúde (UBS) ou em um Centro de Atenção Psicossocial (CAPS).